domingo, 15 de março de 2009

Quem fez a República no Brasil?

A Formação da República.
(Este tema foi atualizado com nova redação na publicação de abril de 2011, confira)

O período da Proclamação da República de 1889 à Revolução de 1930, tradicionalmente é denominado de República Velha. Contudo nos últimos anos, o termo vem sendo gradualmente substituído por Primeira República, porém, as interpretações sobre o período não sofreram alterações significativas.

Primeira Bandeira da República. Criada por Ruy Barbosa foi usada de 15 a 19 de novembro de 1889 para repreentar o pavilhão dos Estados Unidos do Brasil.






Charge simbolizando os novos tempos: A República chegou, mas será que melhorou a vida da população?


Novos Tempos , novos atores e nenhuma mudança.


Nas últimas décadas do século XIX o regime monárquico viveu um processo constante de crise, refletindo o surgimento de novos interesses no país, associados a elite cafeeira, aos militares, às camadas urbanas e aos imigrantes, sendo que estes últimos representavam a nova força de trabalho. O movimento que eliminou a monarquia no país foi comandado pelo exército, unido à elite agrária, particularmente os cafeicultores do oeste paulista. Esta elite, há duas décadas organizaram um partido político, o PRP - Partido Republicano Paulista - que defendia o ideal republicano, o fim da escravidão e o federalismo que garantiria a autonomia estadual. Foi desta maneira que a elite cafeeira procurou conquistar o apoio dos setores urbanos, de diferentes classes sociais e das elites regionais. A História da República brasileira é recheada de fases. Nos primórdios republicano os presidentes eram militares e por isso esta fase ficou conhecida como a República da Espada, depois consolidou-se a República das Oligarquias, título que firmou-se no processo histórico republicano. Os presidentes eram representantes das elites e davam de costas às carências da população. Através de mecanismos de manutenção do poder implementa-se a chamada “política dos governadores”, um federalismo peculiar, baseado em alianças e trocas de favores políticos. Essa política favorecia a consolidação das oligarquias regionais. O povo, principalmente do interior, estava submetido ao "coronelismo e ao banditismo". A impunidade e a fraude política marcaram esse período. Além dos coronéis, havia também a "Comissão de Verificação", para garantir o resultado favorável nas eleições. O voto não era secreto e a maioria dos eleitores estava sujeita à pressão dos chefes políticos locais (os coronéis). A República brasileira era dominada por diversas oligarquias estaduais, principalmente de São Paulo, Rio Grande do Sul e Minas Gerais.













Quadro de Bendito Calixto pintado em 1893 retrata a cena da proclamção no Campo de Santana, no Rio de Janeiro.

Mas afinal quem fez a República no Brasil?

Parte da resposta está na imagem acima, retratada por Benedito Calixto. O olhar mais atento da cena constata-se a ausência de um personagem essencial. Então, já descobriu o grande ausente? Certamente a conclusão que chegamos é que a população mais desasistida não foi convidada para participar desta "festa da elite" e quando entrou foi pela porta dos fundos. Por sinal durante grande parte da história republicana nacional o povo de baixa renda esteve excluído do processo decisório político. Como foi possível esta exclusão do povo? Através de mecanismos com a "política dos governadores", da "política do café com leite", da "comissão de verificação", o coroneismo e seus adereços o voto de cabresto, as fraudes eleitorais. As oligarquias montaram uma estrutura de poder que atendia aos interesses das nossas elites e afastava parcelas significativas da população que eram chamadas ao processo apenas na ocasião das eleições para validar a República Democrática através do voto. Devido a este esquema, somente a minoria da população, as oligarquias, era atendida em suas reivindicações. O povo brasileiro estava cada vez mais marginalizado e, portanto, era vítima da exclusão política e social. A insatisfação com o regime republicano ficou patente com o passar dos anos e muitos dos excluídos sentiram-se traídos pelas promessas republicanas e não foram poucos os movimentos de contestação da ordem. Diversas revoltas ocorreram no campo ou nas cidades. Como exemplos significativos, podemos citar: a Revolta de Canudos, o fenômeno do Cangaço, o Contestado, a Revolta da Vacina e a Revolta contra a Chibata.


AS REVOLTAS SOCIAIS NA PRIMEIRA REPÚBLICA.

A visão do estrangeiro sobre as revoltas.
A revolta de Canudos (1895-97), a (1904 Revolta da Vacina) e do Contestado (1912-16) repercutiram no Exterior como movimentos contrários, respectivamente, à República Brasileira, ao saneamento do Rio de Janeiro e à implantação de uma ferrovia na Região Sul. Assim sendo, foram vistas pelos países estrangeiros como ocorrências de caráter retrógrado, que poderiam dificultar a modernização do Brasil e seu maior entrosamento com o capital internacional, na qualidade tanto de mercado consumidor como de exportador de matérias-primas. A versão de que as revoltas sociais atrasavam o desenvolvimento do país veiculada pela imprensa da época e durante muito tempo constou nos livros de História. Porém uma releitura destes movimentos sociais trazem uma nova interpretação, colocando os movimentos reividicatórios como um enfretamento dos desassitidos à polítca

Coronelismo Coronelismo e Messianismo. Em 1934 morria em Juazeiro do Norte (Ceará) um "messias", também perseguido pela Igreja Católica, porém, ao contrário de Antonio Conselheiro (Bahia), o Padre Cícero Romão Batista era um aliado dos coronéis do Vale do Cariri, que a partir de 1912 lutaram contra a política de intervenções do governo federal e derrubaram o governador. A seguir vamos detalhar como estes episódios fizeram parte do cenário da Primeira República.

O MESSIANISMO
Considera-se como movimento messiânico, aquele que é comandado por um líder espiritual, um "messias", que a partir de suas pregações religiosas passa a arregimentar um grande número de fiéis, numa nova forma de organização popular, que foge as regras tradicionais e por isso é vista como uma ameaça a ordem de poder constituída ou seja atinge os interesses dos líderes políticos locais - os coroneis. Esses movimentos tiveram importância em diversas regiões do país; no interior da Bahia em Canudos, liderado pelo Antonio Conselheiro, em Juazeiro do Ceará, liderado pelo Padre Cícero, no interior de Santa Catarina e Paraná, liderado pelo beato João Maria. Como o messianismo foi possível ? Devido a algumas condições objetivas como a concentração fundiária, a miséria dos camponeses e a prática do coronelismo, e por condições subjetivas como a forte religiosidade popular e a ignorância. Os grandes grupos sociais (a massa popular miserável) que acreditaram nos messias e os seguiram, procuravam satisfazer suas necessidades espirituais e ao mesmo tempo materiais.

O CORONELISMO
Após a Proclamação da República, a maior autonomia dada aos Estados, ajuda a desenvolver o coronelismo. O coronel era o chefe político local, grande proprietário de latifundio, que utilizava-se de jagunços e agregados para manter e ampliar seus "currais eleitorais", influenciando a vida política municipal e estadual. O prestígio político do coronel era medido pela quantidade de votos que controlasse ou seja o “voto de cabresto”. Havia ainda as disputas entre os coronéis, envolvendo as contendas por terras ou pelo controle político da região e no Estado.



AS REVOLTAS SOCIAIS RURAIS.

O CANGAÇO
Entre o final do século XIX e começo do XX (início da República), surgiu, no nordeste brasileiro, grupos de homens armados conhecidos como cangaceiros. Estes grupos apareceram em função, principalmente, das péssimas condições sociais da região nordestina. O latifúndio, que concentrava terra e renda nas mãos dos fazendeiros, deixava as margens da sociedade a maioria da população. Portanto, podemos entender o cangaço como um fenômeno social, caracterizado por atitudes violentas por parte dos cangaceiros, mas não somente por este prisma, como nos ensina o professor Júlio Chiavenatto ao desmistificá-los, mostrando que "o Cangaço é um sistema de luta de classes que se processava no Nordeste. Só que o cangaceiro não tinha consciência social e o Cangaço acabava sendo simplesmente uma reação à miséria que não se resolvia de forma racional, se resolvia pela violência. (...) O cangaceiro não tem nenhum fim social na sua luta, ele não busca posse de terra e a justiça social, ele luta simplesmente pela sua sobrevivência e o Cangaço passa a ser um meio de vida."
Cangaceiros andavam em bandos armados, espalhavam o medo pelo sertão nordestino. Possuíam uma vida nômade, ou seja, viviam em movimento, indo de uma cidade para outra. Ao chegarem nas cidades pediam recursos e ajuda aos moradores locais. Aos que se recusavam a ajudar o bando, sobrava a violência. Promoviam saques a fazendas, atacavam comboios e chegavam a seqüestrar fazendeiros para obtenção de resgates. Aqueles que os respeitavam e acatavam as ordens dos cangaceiros não sofriam, pelo contrário, eram muitas vezes ajudados. Esta atitude de ajudar, fez com que os cangaceiros fossem respeitados e até mesmo admirados por parte da população humilde da época que os consideravam a única forma de obter justiça.
Por não seguirem as leis estabelecidas pelo governo, eram perseguidos constantemente pelos policiais (os macacos). Existiram diversos bandos de cangaceiros. Porém, o mais conhecido e temido da época foi o comandado por Lampião (Virgulino Ferreira da Silva), também conhecido pelo apelido de “Rei do Cangaço”.

A GUERRA DE CANUDOS.                                                                                                   No sertão da Bahia, no final do século XIX, travou-se a Guerra de Canudos, uma das mais sanguinárias revoltas populares da história brasileira. Movimento de cunho religioso, adquiriu coloração política, passou a ser considerado subversivo pelo governo e se alastrou em áreas socialmente carentes e miseráveis. Canudos era um arraial do interior da Bahia, área isolada e de difícil acesso. Na região se instalou a partir de 1893 o beato Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro. Antes, o beato percorrera o sertão pregando transformações, profetizando o fim do mundo e despertando a ira das autoridades e do clero católico, que o consideravam e a seus seguidores uma ameaça ao establishment. Conselheiro comandou uma queima de editais de cobrança de impostos e, em seguida, refugiou-se com seus adeptos em Canudos. A partir daí, seu exército, uma grande massa de pobres e maltrapilhos, só cresceu, chegando a uma população de 30 mil pessoas. “A República tinha medo da idéia socialista em plena caatinga, contra o poder do coronel e o latifundiário” Esta afirmação está inevitavelmente associada ao porquê o poder da elite temia o Conselheiro. Ao chegar do alto da colina e abrir os braços, disse “É aqui” , Conselheiro não fundou somente um arraial, começou ai o sistema igualitário, com a distribuição dos bens; recebendo famílias de todas as partes do Brasil. Isto era extremamente temerário para os líderes políticos locais. Conselheiro estabeleceu uma comunidade de natureza socialista, em plena caatinga nordestina, baseada nos anseios das massas camponesas, mais influenciado também pelas idéias do cristianismo primitivo. Entretanto mesmo que suas atitudes fossem socialistas o Conselheiro jamais ouvira falar das bases teóricas da Obra de Karl Marx. Ao mesmo tempo, Conselheiro desenvolveu uma das primeiras experiências socialistas no mundo: em Canudos, cada família entregava metade de suas posses para o conjunto da comunidade, mantinha roças e criações familiares, vivia desse trabalho e sustentava os desvalidos que iam chegando. Conselheiro seguia princípios da igreja católica e impunha regras religiosas rígidas a seus seguidores, obrigados a rezar terços todas as noites. A perseguição à comunidade aumentou após relatório de frades capuchinhos que apontavam Conselheiro e seus beatos como adeptos de seita político-religiosa lastreada em superstições e fanatismo. Aos poucos, o movimento adquiriu caráter de oposição à República instalada anos antes no país. O governo do estado começou a despachar tropas para destruir o arraial e estas eram irremediavelmente dizimadas pelo bando de beatos. Mas, a morte de um coronel do Exército mudou o curso dos combates. Em 1897, na quarta incursão de tropas governamentais à região, os militares incendiaram Canudos, mataram toda a população e degolaram os prisioneiros. A Guerra de Canudos deu origem a um dos clássicos da literatura brasileira, o livro Os Sertões, de Euclides da Cunha.
(Este tema foi atualizado com nova redação na publicação de março de 2010, confira)